A transgressão da norma

Aurélia de Sousa. Exposição e Catálogo

Lançamento do Livro-catálogo “Aurélia de Sousa, mulher-artista (1866 – 1922), na Quinta da China, Porto. Fotografia de Miguel Nogueira
Lançamento do Livro-catálogo “Aurélia de Sousa, mulher-artista (1866 – 1922), na Quinta da China, Porto. Fotografia de Miguel Nogueira
19 DEZ 2016
por

A exposição Aurélia, mulher artista, nasceu da vontade de duas autarquias, Matosinhos e Porto, comemorarem a efeméride do nascimento da pintora Aurélia de Sousa. No passado dia 13 de junho, data da inauguração da exposição, completaram-se então 150 anos do seu nascimento.

Detentoras de um vasto espólio da artista, as câmaras municipais de Matosinhos e do Porto, uniram-se na coorganização não só de uma exposição comemorativa, mas também, na edição de uma publicação que vem marcar uma nova leitura sobre o seu legado. A curadoria da exposição e coordenação da publicação estiveram a cargo de Filipa Lowndes Vicente1, cujo know-how e abordagem foi essencial para a conceção da exposição como uma narrativa e não apenas como uma criação estética. “A exposição explora esta relação, entre vida e obra, tanto como a relação entre ser mulher e ser artista (…). De uma artista de talento e ambição que transgrediu muitas das expectativas sociais que limitavam a criatividade das mulheres”.

É, mais do que uma mostra de obras de arte, de um inventário expositivo com o maior número de obras possível, onde a observação recairia fundamentalmente sobre a sua qualidade técnica, as temáticas que representou ou os estilos artísticos em que possam estar catalogados os seus quadros, com intuito de construir uma narrativa. Onde permitisse questionar de que forma Aurélia de Sousa se inseriu - ou se afastou - do contexto histórico, social e cultural de então. Uma narrativa que faça entender o que a tornou diferente, especial.

Conhecer, ainda que de uma forma embrionária, mas que é sem dúvida um trampolim para futuras investigações mais aprofundadas, o contexto artístico no feminino. Porque vingou Aurélia? Porque conseguiu se profissionalizar enquanto artista? Que obstáculos ultrapassou? De que abdicou? Porque foi, durante tanto tempo esquecida, apagada dos livros da História da Arte?

Partindo dos espólios existentes, das coleções municipais, vieram juntar-se empréstimos de outras instituições, como a Casa Museu Teixeira Lopes, o Museu Nacional Soares dos Reis, o Museu de Abade Baçal, ou a Misericórdia do Porto e de colecionadores particulares, sendo estes últimos os grandes fiéis depositários da obra da artista. Não sendo tradição, à data, os Museus adquirirem obras de mulheres-artistas, é nas coleções particulares que encontramos inúmeras obras não só de Aurélia, mas de outras mulheres pintoras. Podemos nomear um exemplo: na primeira exposição em nome individual, em 1936, estiveram expostas 206 obras de arte de Aurélia, cuja origem foram colecionadores particulares.

O espólio da Casa Museu Marta Ortigão Sampaio apresenta uma variedade de tipologias em que é possível fazer a exploração concebida pela Curadora. Começando desde logo na Casa, doada por Marta Ortigão Sampaio, sobrinha de Aurélia, onde podemos encontrar, para além da pintura, materiais de pintura, diários gráficos, máquinas fotográficas, fotografias, cartas, mobiliário, joias… Este acervo permite de alguma forma acrescentar mais interesse, complementando a exposição das obras de arte. Interessante também é que do espólio portuense (e também matosinhense) fazem parte também obras de Sofia de Sousa, irmã de Aurélia, também artista.

O grande desafio desta exposição, e do conteúdo que se pretendeu explorar, não se resumiu à pesquisa do paradeiro dos quadros – tarefa herculeana - mas sim, ao facto de ser uma exposição em dois núcleos, separados entre si por cerca de 10 km, em duas cidades diferentes e em dous edifícios díspares. Optou-se então por encontrar uma base comum aos dois espaços – biografia, percurso académico, percurso artístico, contextualização histórica, artistas contemporâneas e fotografia – e naturalmente dividir as temáticas das obras pelos espaços. Em Leça da Palmeira estiveram as paisagens, próximas ou distantes, reais ou ficcionadas e as “naturezas-mortas”, onde se incluem as inúmeras “Flores”, e no Porto, a figura humana, autorretratos, retratos, cenas do quotidiano interiores e exteriores e cenas religiosas. E, acerca do contentor da exposição, podemos também referir que a casa que constitui hoje o Museu da Quinta de Santiago, construída em 1896 (inaugurada como Museu em 1996) ser, de uma forma natural, um espaço irrepreensível para exposição das obras da artista, que viria a falecer em 1922.

Com o intuito de materializar esta exposição no tempo e de forma também a fornecer os conteúdos necessários à sua interpretação foi editado o livro-catálogo "Aurélia de Sousa, mulher artista (1866-1922)" 2, cujo lançamento se realizou no passado dia 29 de outubro, na Quinta da China, local emblemático e de referência para a vida e obra da artista. Trata-se de uma publicação híbrida – um conjunto de 10 ensaios inéditos de contextualização e o catálogo da exposição. Para o livro contribuíram alguns autores que haviam já editado escritos sobre Aurélia de Sousa, como são os casos de Adelaide Duarte, Maria do Carmo Serén, Maria João Lello Ortigão de Oliveira e Raquel Henriques da Silva, aos quais se juntam novos autores, desafiados pela curadora: Ana Soromenho, Bruno Monteiro, Manuel Azevedo Graça, Sandra Leandro e Susana Moncóvio.

Foi também encomendado, por parte da autarquia de Matosinhos, uma curta-metragem, filmada em super 8 mm, “Aurélia”, de Cristiano Costa Pereira, que teve estreia absoluta no passado dia 24 de outubro, no “V Douro Film Festival”, que teve lugar no Ateneu Comercial do Porto.

Notas

1Filipa Lowndes Vicente é historiadora e investigadora no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, e é autora de vários artigos e livros onde explora a história no e do feminino.

2À vendas nas autarquias e em circuito comercial. “Aurélia de Sousa, mulher artista (1866-1922)", Coordenação de Filipa Lowndes Vicente, Tinta-da-china, Lisboa, 2016.