Ciúme

Obsessão e fragilidade

4 MARÇO 2016,
O ciúme, a sensação comum tanto na realidade e na ficção
O ciúme, a sensação comum tanto na realidade e na ficção

Ter ciúme é sentir-se perdendo o controle, sendo rejeitado, substituído. Quanto mais insegurança, quanto maior suas não aceitações, seus problemas e dificuldades, maior a necessidade de trunfos e certezas. A fidelidade, a manutenção dos compromissos, faz com que o outro esteja sempre presente, consequentemente, à mão para reafirmar poder e possibilitar segurança. Estas situações são bem explícitas e frequentes nas relações de casal, embora também existam entre pais e filhos e entre amigos.

Focalizando as vivências do ciúme no contexto da carência afetiva, surgem situações espantosas que aparecem sob forma de coisificação ou de antropomorfização. Ter ciúmes de objetos que foram tocados ou mereceram atenção do “ente amado” é estar inserido nas vivências psicopatológicas. Humanizar objetos (antropomorfização): livros, roupas, carros, por exemplo, é imaginá-los como uma continuidade do outro, à medida que são escolhidos e tocados. A antropomorfização é um processo que apaga as barreiras, os limites e diferenciações do real, do existente, para que se consiga ampliar os medos, fantasias, confabulações e silogismos que permitem equacionar as justificativas das vivências ciumentas. Na coisificação, o outro é transformado em objeto, polarizador de atenção, de afeto e, assim, consequentemente, passa a ser odiado. Metonímia realizando funções despersonalizantes.

Ter ciúme é explicitamente lamentar, expor suas dificuldades, suas fantasias e obsessões, reclamando de lhe tirar os controles, os arranjos solucionadores. Exatamente este aspecto caracterizador do ciúme, o contextualiza na vivência de medo e impotência. Sem autonomia, com dificuldades, querendo ajuda, não se pode abrir mão, perder o que se tem. Qualquer ameaça dispara o ciúme, o controle, a reclamação reivindicatória cheia de alegações.

A relação estrutural entre ciúme e não aceitação, problema, dificuldade, enfim, a conhecida baixa auto-estima, é muito visível quando lidamos com comunidades economicamente carentes, onde os clássicos exemplos de domínio e autoridade do homem são mantidos. As mulheres a tudo se submetem, até suportam ser espancadas para manter o direito de proteção e ajuda oferecidos pelo parceiro, seu suporte-espancador. Frágeis, estas mulheres tipificam as vivências de ciúme, tudo fazem para manter e controlar seus parceiros, que mesmo quando as jogam na prostituição para complementar orçamento, não têm ciúme, embora as deixe cada vez mais ciumentas.

Ciúme é impotência, é geralmente o desespero de não mais conseguir interessar, motivar e monopolizar o outro. Perder esta influência, deixa sem direção, no chão, derruba e desanima. O ciúme é também um dos indicativos da vontade de ser o outro, o merecedor das atenções. A situação é antagônica: detesta-se, odeia-se o causador do ciúme, mas é o que se quer como modelo, como parâmetro, como objeto de transformação. Esta divisão é uma duplicidade; cria vítima e agressor simultaneamente vivenciados pelo mesmo indivíduo, daí, as situações de ciúme sempre possibilitarem desejos de vingança, ódio, humilhação e frustração, buscando alívio e ajuda para os males. Medeia, com sua trágica história e Otelo de Shakespeare, com seu drama, nos mostram estes aspectos, esta polaridade agressor (vingativo) e vítima (imolado), simultaneamente vivenciados, que caracterizam o ciúme, seus elementos fantasiosos e trágicos, situações sempre contemporâneas, ocorrências frequentes de reclamações nas sessões psicoterápicas e nos noticiários sobre crimes passionais.