A Grande Muralha «Digital» China

Os bloqueios virtuais do país asiático

Tecnologia móvel na China
Tecnologia móvel na China
15 AGO 2016
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Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, sempre que pode lá vai fazendo as suas aparições pela China, seja a dar a corridinha matinal por Pequim ou a dar palestras em universidades. E sempre a surpreender, não pela sua indumentária que se resume à T-shirt cinzenta, mas pelo domínio do Mandarim.

Mark conta que a razão pela qual está a aprender mandarim é para se relacionar e comunicar de forma mais profunda com a família da esposa, Priscilla, a qual tem ascendência chinesa. No entanto, as habilidades linguísticas muito devem ajudar na aproximação ao mercado chinês.

Aproximação expressa, em Maio de 2015, quando o Facebook abriu um escritório de anúncios de vendas na rede social dirigido às empresas chinesas que queiram atingir consumidores e potenciais clientes nos mercados fora da China.

Ainda o Facebook estava a consolidar o título mundial de maior rede social quando teve o revés de o governo chinês, em Julho de 2009, o bloquear após o início das manifestações na província de Xinjiang encetadas por ativistas pró-independentistas.

New York Time, Twiter, Youtube, assim como vários produtos da Google, como o Gmail ou Google Maps, ou a mais recente vítima, o Instagram, bloqueado desde as manifestações pró-democráticas em Hong Kong, entre muitos outros websites ocidentais, encabeçam a longa lista de retidos pela Grande ‘’Firewall’’ da China, tal e qual as ancestrais Dinastias renegavam os Mongóis e Manchus para lá da Muralha.

Se, por um lado, podemos ver os bloqueios virtuais como medidas de protecionismo económico de forma a potenciar o crescimento de produtos virtuais chineses, o motor de busca doméstico Baidu, ou as redes sociais locais, QQ, Weibo ou RenRen, são exemplos disso, os quais viram os seus utilizadores crescerem exponencialmente desde o bloqueio dos websites ocidentais. Por outro lado, percebemos a sôfrega vontade do governo Chinês em controlar os conteúdos criados e publicados a partir da China, que podem ser editados, restringidos e apagados, ao passo que fogem ao controlo todos os conteúdos que são partilhados a partir de servidores localizados externamente. Logo, o resultado, passa por obrigar os websites estrangeiros a respeitarem escrupulosamente as restrições impostas pelas leis chinesas, como o caso do LinkedIn, ou simplesmente bloquear o acesso àqueles websites criem um buzz incómodo às autoridades chinesas.

A população chinesa são cerca de 1300 milhões e uns trocos, sendo os utilizadores de internet na China mais de 600 milhões, cerca de metade do total de utilizadores do Facebook em todo o mundo. É nestes números que, o Facebook e outros gigantes da web, ficam de olhos em bico, a potencialidade do mercado é gigantesca, seja a nível de receitas através de anúncios de vendas, criação de serviços de vendas ou a incomensurável base de dados que pode ser criada sobre as necessidades dos consumidores chineses.

Porque Xi Jinping deve fazer ‘’Like’’ ao Facebook?

Contudo, o problema virtual embate no problema real que a China atravessa, a falta de desenvolvimento em software intelectual. A obsessão pelo hardware é inigualável, exemplo disso são as linhas de comboio de alta velocidade, as auto-estradas, aeroportos, pontes etc. No entanto, a infra-estrutura que mais carece de incentivo é a inovação, inovação esta que impele a criação o desenvolvimento de uma economia de serviços e não apenas de montagem e produção. O governo chinês tem vindo a garantir o seu crescimento económico, em grande parte na montagem, produção para grandes marcas estrangeiras e reprodução dos produtos dessas mesma marcas, deixando as empresas multinacionais arrasarem com o meio ambiente e esgotarem recursos naturais. O governo chinês vem favorecendo indivíduos politicamente bem conectados e as suas mega empresas em detrimento de startups tecnológicas. Alimentam-se desequilíbrios socias e aumenta-se a pressão sobre a bolha económica. É necessário fazer uma alternância de rumo no investimento, é necessário garantir um futuro sustentável capaz de gerar milhões de postos de trabalhos qualificados.

Segundo um estudo elaborado pela OCDE, a China, a segunda maior economia do mundo, encontra-se em 22º lugar do ranking para inovação. Segundo Dahlila Peterson, analista de assuntos políticos chineses da Universidade de Berkeley, Califórnia, ‘’A inovação é sinónimo de assumir riscos e quebrar regras que levam à criação de novos, práticos e revolucionários mercados.’’

Mas como pode a nova geração de chineses entrar na discussão mundial, em fóruns de partilha de conhecimento, em plataformas sociais onde se publicam ideias e se partilham saberes, como podem ter acesso às conversas do quotidiano virtual quando têm o acesso bloqueado?

O gigante online chinês Alibaba, é exemplo da falta de inovação em detrimento do favorecimento de Jack Ma. O empresário mais rico da China não criou nada de novo, apenas pegou em ideias, já existentes, e adaptou-as ao mercado chinês, criando a Mecca das compras online. É impressionante, no entanto, Jack Ma não inventou nada de novo, nem nada que impulsione os níveis de inovação de impacto directo na economia chinesa.

A China tem a capacidade e potencial de se posicionar como um ator significativo no panorama internacional naquilo que diz respeito aos avanços da ciência, tecnologia e engenharia, como já o demostrou no passado milénio, o resto do mundo comia com a mão e os chineses já há muito o faziam com pauzinhos, nós carregávamos materiais às costas e eles de carrinho de mão, fizeram avanços no papel e na impressão em papel, inventaram a bússola e a pólvora. Xi Jinping devia pegar nos exemplos ancestrais e aproveita-los para impulsionar a inovação no presente.

Mas porque Xi Jinping declina o ‘’pedido de amizade’’?

O bloqueio de websites ocidentais apresenta-se como um paradoxo para o Presidente da China, por que é que o líder, considerado o mais poderoso em gerações, tem receio de se abrir à internet?

Se, de um lado, percebemos que a China está a criar cada vez mais uma economia de mercado, internacional e aberta, do outro lado, o bloqueio do Facebook materializa o oposto, incorporando problemas inerentes. É fácil entender o receio do Partido Comunista Chinês na invenção de Mark Zuckerberg, o seu papel nas revoluções da Primavera Árabe ou no movimento pró democrático em Hong Kong deixam as autoridades de Pequim com receio de algo parecido.

China necessita de acompanhar o crescimento económico, e o fortalecimento como ator responsável no sistema internacional dando o exemplo, dando um acesso mais abrangente aos jovens da China Continental. Uma internet mais livre e acessível traria uma maior sensibilização e responsabilidades sociais aos utilizadores, publicando e partilhando os exageros dos favorecidos, os intocáveis ficariam expostos, trazendo uma real mudança politica e financeira, seria uma ajuda no escopo da luta contra a corrupção, um dos estandartes do governo de Xi Jinping, seria a forma sincera de eliminar verdadeiramente elementos prejudiciais à sociedade chinesa.

Essas alterações que as redes sociais preconizam na forma como as pessoas se relacionam com os seus governos entram em conflito direto com aquilo que Xi Jinping acha que deve ser a posição da China no mundo e com aquilo que acha que deve ser dado a conhecer do mundo à China.