Comportamento sexual

Acertos, contratos, preconceitos

4 OUTUBRO 2015,
Robert Mapplethorpe - Ken Moody and Robert Sherman, 1984 (detalhe)
Robert Mapplethorpe - Ken Moody and Robert Sherman, 1984 (detalhe)

Preconceitos e restrições estão assumindo novas formas e estas distorções, decorrentes da não globalização de fenômenos e comportamentos, criam divisões, polaridades e consequentes explicações despropositadas sobre comportamento humano. Exemplificaremos.

Ainda hoje, inúmeras pessoas (inclusive pesquisadores, médicos e psicólogos) falam de homossexualidade e heterossexualidade como imposição orgânica e genética, como atitude ou orientação sexual não escolhida. Persistem, nesta abordagem, duas ideias extremamente problemáticas: a primeira é a da existência de uma natureza prévia, anterior e determinante da construção cultural da identidade (sexo igual a organismo, natureza e gênero igual a construção identitária, cultural) e a segunda, a de que escolher é exercer liberdade, exercer preferência independente de contextos limitadores. Ambas ideias reafirmam preconceitos seculares, dualismos e reducionismos acerca do comportamento humano.

Não existe natureza humana, não existe prévio natural como condição determinante do comportamento. O comportamento humano não resulta de “forças naturais” e “instintos”, resulta sim de dinâmicas relacionais, necessidades e possibilidades relacionais caracterizadas por autonomia, medo, justificativas, metas etc.

Pensar na escolha como exercício de preferência é contraditório, é entendê-la como a priori, como compromisso com motivações, com situações, com posições prévias e, portanto, como comportamento condicionado. Penso escolha como evidência. Escolher é estar presente, é a imposição do diálogo. Sempre que participamos estamos escolhendo isto ou aquilo, sem pausa para avaliação, sem conflito, sem dilema. Neste sentido, podemos mesmo dizer que não existe escolha, a vida é participação, evidência. Parar para escolher é constatar a não participação, é constatar a quebra, é vivenciar o corte e querer emendá-lo.

Há pouco tempo circulou nas redes sociais um pôster que pretendia criticar a discriminação a pessoas e grupos, baseada em preconceito sexual, étnico, estético etc. Apesar da ‘boa intenção’, o pôster veiculava os enganos mencionados acima e ainda a ideia altamente preconceituosa de que “o que é natural” impõe-se e justifica-se por si só, ao passo que “o que é escolhido” é passível de condenação e rejeição. Seus dizeres eram:

“Coisas que as pessoas não escolhem:

  • Orientação sexual
  • Identidade de gênero
  • Aparência
  • Deficiências
  • Transtornos mentais
  • Cor, etnia, raça

Coisas que as pessoas escolhem:

  • Ser um babaca com as pessoas por coisas que elas não escolhem”

Lamentável a confusão entre natural e adquirido, entre biológico e social, entre indivíduo e sociedade. Tudo isto junto no cadinho, no liquidificador do preconceito, pois só no âmbito do mesmo é que imanências biológicas como aparência, cor de pele, desorganizações cerebrais, deficiências físicas são consideradas contingências, circunstâncias passíveis de valoração e equivalentes a poder ou não ser escolhidas - situações onde colocar possibilidade de escolha é negá-las como evidência humana. Não se trata de ter direito de ser negro, homem, aborígene ou manco, mas sim, se é negro, homem, aborígene, manco e isto é humanidade com suas diversificações. Quando se diz que se deve aceitar cor, raça, etc. porque não são escolhas, esta afirmação em si mesma é preconceituosa. E mais, o pôster é gerado no bojo do preconceito e do reducionismo biológico, ao dizer que orientação sexual e identidade de gênero não se escolhe.

Orientação sexual é atitude, é motivação, é um dado relacional vivenciado enquanto participação ou dificuldade. Aceitar as motivações afetivas em relação ao outro, suas implicações sexuais, independente de ser do mesmo sexo ou de sexo diferente, é uma disponibilidade que permite vivenciar as motivações ou, em posicionamentos de dificuldade, impede suas viviencias pelo medo, culpa, certeza de inadequação e de erro ao fugir dos padrões estabelecidos. Os indivíduos são livres ou limitados para vivenciar sexualidade, independente da diferença ou igualdade de sexo.

Sexualidade não se define por anatomia, tanto quanto prazer não resulta de condições anátomo-sociais. Nas vivências problemáticas, o ser humano é omisso e limitado para vivenciar sua sexualidade, pois para ele esta vivência pode ser apenas uma senha para ser aceito em um grupo, para constituir família, para garantir seu futuro, para permitir exercer suas molduras e escaladas sociais.

Falar de identidade de gênero como escolha/não escolha é andar na contramão, “perder o bonde da história”, em uma época onde exatamente o que se discute e admite é não haver gênero, desde que ele seria apenas resultado de autoritarismos enviesados dos “machistas”, tanto quanto das “feministas”. Identidade é uma organização social e psicológica que independe de diferenças sexuais biológicas, de ser homem ou mulher. Admitir identidade de gênero, dizer que ela não é escolhida, é ressuscitar preconceituosos protocolos de feminino e masculino, é equivalente a reduzir tudo ao azul e rosa.

Escolher ou não escolher não são referenciais importantes. Não podemos polarizar e validar o comportamento nestes aspectos. Escolher sempre implica em compromisso e vice-versa.

Pensar em escolha como participação, como disponibilidade, flexibilidade, permite configurar melhor as possibilidades humanas, mas é preciso não esquecer que toda possibilidade pode estar contextualizada em necessidades e que as mesmas são limites que podem permitir transcendência - exercendo possibilidades - ou podem ser limites polarizantes de possibilidades, estruturando a redução das mesmas às suas circunstâncias configuradoras.

Tudo pode ser escolhido, tudo pode implicar em disponibilidade, participação ou limitação, desde que, no encontro com o outro e com o mundo, as contradições, inserções e complementações surgem. Sintonias, distonias e atonias estruturam o ritmo, a sinfonia do ser com o outro, do estar no mundo.