Coordenadas vivenciais

Temporalidade e Espacialidade

4 FEVEREIRO 2016,
Temporalidade como uma vivência psicológica para seres humanos
Temporalidade como uma vivência psicológica para seres humanos

Tudo que existe ocupa um lugar no espaço, tanto quanto existe em um tempo. Este é um conhecimento básico. Qualquer experiência humana, enfim, qualquer vivência é sempre exercida pelos processos perceptivos que atestam, que permitem a constatação de que tudo que existe ocupa um lugar no espaço e existe em um tempo.

Variações temporais (passado, presente, futuro) e espaciais estabelecem modalidades que propiciam separar posições relacionais, desde as mais simples como: “eu agora me lembro“, “estou aqui”, “está alí”, até o “não sei quando”, “não sei onde”, vivenciando-as como aderências cognitivas e significativas, embaralhando e se perdendo nas próprias vivências do real e imaginado, realizado e desejado, enfim, espacializando o tempo, fazendo com que o mesmo ocupe um lugar no espaço. Esta densificação da temporalidade é uma das distorções mais frequentemente realizadas quando não se aceita a continuidade e sequência de acontecimentos e mudanças. Isto ocorre, por exemplo, quando se desenvolve aversão a um dia da semana, porque foi o dia da morte do pai. O tempo vira espaço e espacializar é transformar em fetiche, em ornamento necessário para expressar medos, dores, lutos e traumas.

Para os filósofos védicos, a questão do tempo e do espaço era fundamentalmente abordada como finito e infinito. Shankaracharya falava que o finito ignora o infinito ou ignora que é também infinito, esta “ignorância” é a causa de todos os sujeitos e objetos (mundo empírico).

Há poucos meses, visitando uma exposição de trabalhos de Louise Bourgeois, li uma de suas frases que dizia: “Espaço não existe, ele é apenas uma metáfora para a estrutura de nossa existência”. Quando li lembrei de Heidegger - temporalidade como morada do ser -, pensei que tanto Shankaracharya, quanto Louise Bourgeois e Heidegger advogam uma metafísica no enfoque das questões de temporalidade e espacialidade, transformando atributos em substantivos ou vice-versa, no desenvolvimento das questões de estrutura, existência, finito e infinito, denso, sutil.

As vivências temporais e espaciais são mais explícitas quando abordamos as percepções de tempo e espaço. Ao focalizarmos o homem, ele é Figura* e o mundo é Fundo (e vice-versa) e ao tentar compreendê-lo temos toda a nossa atitude referenciada no Fundo, no contexto que nos permite esta percepção, nos referenciais de determinação, ocasionando parcialização perceptiva. Diremos, por exemplo, que o homem é fruto de uma sociedade, que é resultante de uma família, que reage a padrões biológicos etc enfim, estes referenciamentos impedem a percepção globalizada do homem. Para que realizemos a globalização é necessário perceber o homem-no-mundo. Homem-no-mundo é uma Gestalt - totalidade -, percebemos uma relação constante e integrativa - homem-no-mundo - que não pode ser dividida. O homem, quando nasce, ocupa um lugar, tem um plano puramente biológico de existência, mas, ao encontrar o outro, é modificado, começa a ser humano graças à nova dimensão, a dimensão do outro. Por exemplo, a mãe não é mais um canal que transmite a informação demandada de alimento, a mãe é uma Gestalt, uma totalidade, um sistema que transmite esta informação. A expressão significativa das formas passa a existir. Não se trata de época, tempo como dado cronológico. Trata-se da transformação de uma relação quantitativa, em uma relação qualitativa. Ganhando condições de ser humano, dado a vivência de estar-no-mundo com outros seres em determinada organização cultural, o homem começa a perceber-se não mais como um organismo, pois seu contexto já não é apenas orgânico, seu contexto é também social, religioso, econômico, moral. O homem está no mundo, é por ele constituído enquanto configuração espacial resultante de padrões culturais, morais, sociais e econômicos, sendo também um constituinte destes mesmos padrões enquanto vivência temporal.

A percepção do tempo, sua vivência, é feita através de referenciais, tal como ocorre em toda percepção de qualquer fenômeno. O referencial para a percepção do tempo é o espaço vital do indivíduo, significado por suas memórias e atitudes. A vivência humana se constitui pela transcendência do espaço, pela saída de posicionamentos para relacionamentos, pois ao nos relacionarmos com o outro, constituimo-nos em temporalidade: passado, presente ou futuro. Participando da relação com o outro que está conosco, constituimo-nos no presente; relacionando-nos com o outro enquanto transmissor de atitudes apriorísticas, presentificamos o passado; relacionando-nos em função de metas, antecipamos o futuro. Assim, conceituo o ser humano como temporalidade enquanto vivência relacional e como espacialidade, no sentido de posicionamento estruturado. O relacionamento com o outro transcende a imanência biológica e confere, ao homem, condições de humanidade, e esta vivência é temporal. Quando nos situamos apenas na faixa do biológico, somos um organismo com necessidades de relacionamento. O ser humano é temporalidade enquanto vivência psicológica. Seu relacionamento com seu situante constituinte, o mundo, o outro, é feito através da percepção, daí, sua vivência psicológica ser toda sua condição de relacionamento.

Tudo depende do outro, contexto que permite transformação: seres em movimento; ou que geram espacialização: seres posicionados.

  • A organização perceptiva obedece a leis (Gestalt Psychology) cujo princípio básico é o de que toda percepção se dá em termos de Figura e Fundo; percebemos o elemento figural e o Fundo nunca é percebido embora seja estruturante da percepção. Existe sempre uma reversibilidade entre Figura e Fundo, o que é Figura transforma-se em Fundo e vice-versa.