O luto homérico e o chapecoense

O sentimento que não muda

Rosas brancas e verdes em homenagem aos jogadores do Chapecoense na Arena Condá
Rosas brancas e verdes em homenagem aos jogadores do Chapecoense na Arena Condá
15 DEZ 2016
por

Mesmo separados por tantos séculos, Troia e Chapecó se aproximam pelos laços da dor. Quantos não tombaram ao longo dos 10 anos do cerco aqueu? 71 em Chapecó. Heróis aqueus e troianos em guerra pela fuga de uma mulher. Heróis que lutariam em busca de um sonho. São muitos paralelos entre a milenar épica grega e a tragédia que assolou o mundo do futebol brasileiro nesse mês de dezembro de 2016 com o time Associação de Futebol Chapecoense, ou simplesmente, a Chapecoense.

Em meio a um mundo tão egoísta, a solidariedade dos colombianos em suas homenagens fúnebres mostrou a capacidade do luto de unir os desconhecidos. Foi o mesmo luto que cessou a guerra de Troia na morte de seus mais valentes heróis. Na verdade, não é de hoje que há solidariedade na dor da morte e eu vejo que há um pouco do luto homérico no luto chapecoense.

No derradeiro canto da Ilíada, o luto é única força capaz de confluir deuses, aqueus e troianos. Em luto pela morte de Pátroclo, Aquiles, depois de matar Heitor (assassino de Pátroclo), ultraja o seu corpo, arrastando-o por três vezes ao redor do túmulo do amigo morto. Fato que indigna os deuses, que clamam a Zeus que o faça parar. Zeus envia Tétis para apaziguar Aquiles e Íris para dizer a Príamo, pai de Heitor, que pague um resgate pelo corpo do filho. Aquiles e Príamo, então, se equalizam por um momento na união que somente o luto pelos seus entes mais queridos poderia proporcionar. A morte separa os heróis amigos e o filho de seu pai, mas o luto a todos une. Aquiles concede 11 dias de trégua na guerra para que as honras fúnebres de Heitor sejam feitas e o corpo é, enfim, levado às muralhas de Troia e recebido pelas mulheres dilacerando seus peitos e envoltas em gemidos e dor. E o canto se encerra com os discursos fúnebres de Andrômaca, Hécuba e Helena, respectivamente, esposa, mãe e cunhada de Heitor.

Pátroclo, Heitor e Aquiles estavam no auge da forma e da vida ao morrerem, bem como muitos dos mortos daquele fatídico voo. Enquanto a luta dos heróis era contra a iminente e concreta ameaça da morte em plena juventude para a obtenção da glória imortal, a dos atletas era, até então, metafórica, pois o campo de batalha era o gramado e a glória viria com o provável primeiro título internacional do time. Mal sabiam eles que as Moiras lhes dariam o mesmo destino dos heróis! De qualquer maneira, os jogadores já tinham virado heróis, encabeçados pelo goleiro Danilo, que levou o time para as finais com uma defesa impressionante. Eles seriam heróis de qualquer jeito...

Assim como os troianos que sabiam da morte do seu maior herói pelas mãos de Aquiles e não podiam lamentar seu morto pela ausência do corpo, assim estavam as famílias dos jogadores e da comissão técnica do time há muitos quilômetros de distância de seus heróis. A angústia dos troianos bem como a atrocidade de Aquiles comovem os deuses que intercedem pela entrega do cadáver a Príamo. Aqui também as autoridades brasileiras se mobilizaram para que os corpos regressassem o quanto antes e para que seus familiares pudessem, enfim, velar seus mortos.

Em Homero, os discursos fúnebres para Heitor terminam o último canto da Ilíada e são proferidos pelas mulheres que ressaltam a vida jovem interrompida do herói, o filho deixado e suas qualidades mais nobres. Nos dias de hoje, em grandes funerais, geralmente os homens fazem discursos, mas nas homenagens da Chape três mulheres também tiveram suas vozes de luto ouvidas.

A primeira foi Lily Meneses, esposa do jogador Farid Díaz do Atlético Nacional de Medellín, que discursou no estádio colombiano onde haveria a primeira partida da final. Em nome de todo o time e de suas respectivas famílias, Lily fez um discurso comovente digno de um coro trágico grego e usou metáforas bélicas para a luta contra a perda e a luta pela vida que aquelas famílias despedaçadas precisavam seguir. Para mim, seu discurso foi muito simbólico e de um toque muito humano da parte dos colombianos, pois como muitas mulheres viúvas naquela noite, somente uma outra mulher poderia se consternar com palavras tão singelas e ao mesmo tempo tão lindas.

Como uma Heróide ovidiana, Isabela Fernandez, esposa do jornalista Giovani Klein, escreve um post em forma de carta ao marido morto no Facebook. Nele a também jornalista externou seu luto revelando o acontecido e todas as homenagens feitas no mundo todo. Manda notícias suas e da cachorra que ainda não entendeu o acontecido. Seu texto foi uma singela despedida e, para mim, ele foi o emblema de nossa nova forma de luto: o virtual. Quantas pessoas não trocaram suas fotos de perfil ou capa com as cores ou escudo da Chape? Quantas não postaram sua dor e compartilharam notícias dessa agonia coletiva? Quantas vezes não vimos a #forçachape? Quantos torcedores de outros times não adotaram a Chape como segundo time do coração?

Por fim, em uma tragédia para o futebol e para a mídia esportiva brasileira, a mãe do maior herói da Chape, resgatado com vida, mas morto, ao ser entrevistada pela enésima vez inverteu os papéis com o repórter e o perguntou: “Como vocês da imprensa estão se sentindo tendo perdido tantos amigos queridos lá? Pode me responder?” e ele simplesmente respondeu em lágrimas: “Não.” A inversão dos papéis e o abraço que seguiu aquele não diante das câmeras não seria possível se o luto naquele momento não os colocassem no mesmo patamar.

A morte separa os heróis dos seus. O luto une o que foi deixado para trás e ensina que, na verdade, seja em Troia, seja em Chapecó, a dor é a mesma. Seja literatura, seja realidade, vão-se os heróis, ficam as palavras.

#ForçaChape