Ferocidade

Redes de crime e opressão

Ferocidade. A violência de grupos paramilitares na América do Sul
Ferocidade. A violência de grupos paramilitares na América do Sul
4 JUN 2015
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Ferocidade é característica de feras e também de seres humanos que se tornam violentos, desumanizados e ferozes. É rápido tornar-se feroz e é também fácil reduzir um ser humano a suas dimensões biológicas, às suas necessidades. É eloquente o depoimento abaixo e mostra como a interseção entre sistemas econômicos e sociais é uma regra de ouro, mantida entre opressores e oprimidos:

“ ‘Oito semanas’, recomeça o soldado barbudo, ‘oito semanas e tudo o que existe de humano no ser humano desaparece. Os Kaibiles descobriram uma maneira para anular a consciência. Em dois meses, pode ser extraído de um corpo tudo o que o diferencia dos animais. O que faz com que ele distinga maldade, bondade, moderação. Em oito semanas, você pode pegar são Francisco e transformá-lo em um assassino capaz de matar animais a dentadas, sobreviver bebendo só mijo e eliminar dezenas de seres humanos sem sequer se preocupar com a idade das vítimas. Bastam oito semanas para aprender a combater em qualquer tipo de terreno e em qualquer condição atmosférica, e para aprender a se deslocar rapidamente quando atacado pelo fogo inimigo.’ ” … “… kaibiles são o esquadrão de elite antissubversão do Exército guatemalteco. Nascem em 1974, quando é criada a Escola Militar que se tornaria o Centro de Adestramento e Operações Especiais Kaibil. São os anos da guerra civil guatemalteca, anos em que as forças do governo e paramilitares, apoiadas pelos Estados Unidos, se veem enfrentando primeiro guerrilheiros desorganizados e, depois, o grupo rebelde Unidade Revolucionária Nacional Guatemalteca. É uma guerra sem trégua. Nas malhas dos Kaibiles caem estudantes, trabalhadores, profissionais liberais, políticos da oposição. Qualquer um. Aldeias maias são arrasadas, os camponeses são trucidados e os seus corpos, abandonados para que apodreçam sob o sol inclemente.” - Zerozerozero de Roberto Saviano, Ed. Companhia Das Letras, pag.90-91

Sobreviver em regiões sócio-econômicas onde a desigualdade, tirania e medo predominam, é a sobrevivência limitada e determinada pelos sistemas opressores. Uma das maneiras de fugir da opressão maciça é trabalhar para o sistema, é ajudar as máquinas opressoras (tornando-se delator, torturador, etc). Outra maneira é arregimentar condições para violências pseudo reparadoras: roubar, matar, supliciar os que dispõem de dinheiro (não importa quanto), formando esquadrões e gangues de violência.

Para se manterem, as sociedades opressoras usam clandestinos, criam ferozes; foi assim, por exemplo, nos anos das ditaduras brasileira, argentina, uruguaia, chilena, com a formação de torturadores, tanto quanto agora é este mesmo suporte residual que se vê no tráfico de drogas, armas e sexo. Qualquer olhar atento para favelas, comunidades de baixa renda, revela este mosaico. Da mesma forma, no Leste europeu (ex União Soviética e seus satélites), após a Perestroika, vemos antigos dirigentes e líderes políticos, “promissores quadros do partido”, organizando bilionárias operações: redes de tráfico de armas, drogas e mulheres. Para realizar estas operações é preciso esvaziar o humano e fazer surgir feras capazes de manter os negócios. A mídia contribui e é fundamental na geração e manutenção dos desejos: a boa comida, a boa roupa e todos os fetiches de consumo e estilo divulgados e propagandeados.

Toda vez que não se aceita limites e restrições do que está acontecendo no presente, da condição socio-econômica, se fica reduzido à sobrevivência, à satisfação de necessidades e assim são criados complexados, pessoas que se sentem inferiorizadas por não serem ricas, não terem tido os brinquedos anunciados na TV, não morarem em apartamentos como os que possuem mais dinheiro. É um início de estruturação de ferocidade, posteriormente aprimorada, efetivada por variáveis de opressão estabelecidas pelos sistemas, pelas familias.

Este processo de não aceitação estabelece metas, desejos de realização, que também são responsáveis por retirar os pés do chão (sair do presente) e se agarrar aos desejos (metas), se agarrar em ilusões de melhora e a qualquer coisa considerada salvadora, desde exercer torturas para manter a ordem social vigente, à venda de drogas e armas para conseguir amealhar o primeiro milhão de dólares. É o esvaziamento humano gerado pela sedução do prazer, paraísos prometidos e nirvanas criadores de feras, tanto quanto de mártires (os que se explodem com bombas), esvaziamento mantido e ampliado por sistemas e situações opressoras.