Comunidade global, vizinhanças possíveis

Entrevista com Marcelo Carnevalle

Marcelo Carnevalle
Marcelo Carnevalle
30 ABR 2017
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Avizinhar-se pressupõe um sorriso para a diversidade e a mão estendida para a tolerância ao diferente.

(Marcelo Carnevalle)

Há um ano retornei para Londres, foram quase dois anos no Brasil.

Durante o tempo que estive na terra onde nasci, meu olhar estrangeiro descobriu peculiaridades que passam muitas vezes despercebidos da população no dia a dia enlouquecedor das grandes metrópoles, entre elas a vizinhança.

Num dos workshops de mobile jornalismo que ministrei no Brasil, conheci o Marcelo Carnevale, jornalista, escritor, carioca da gema que adotou e se apaixonou pela Paulicéia Desvairada e desde 1989 trabalha com projetos para diferentes disciplinas de comunicação, além de atuar como pesquisador no Programa de Pós-graduação em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades da Universidade de São Paulo (USP), e é dele a autoria do projeto “A Vizinhança”.

Num mundo cada vez mais individualista, "sem tempo", bombardeado por informações, selfs, emblemáticos muros, cercas surreais e reais e das situações que envolvem a solidão das migrações ao arranjos comunitários, o autor estará na casa de um dos vizinhos do Brasil, a Argentina, para ministrar um workshop na Universidade de Buenos Aires, no Centro Cultural Rector Ricardo Rojas, no próximo dia 2 de Maio.

Nesse encontro as pessoas terão a oportunidade de refletir sobre a coexistência no espaço urbano, a micro política que expressa as dificuldades gerais de diálogo e tolerância com a diversidade.

A palestra é, também, um convite ao exercício de uma escuta ativa baseada na experiência do projeto “A vizinhança” que nos últimos dois anos promoveu rodas de conversas e buscou flagrantes da vida comum, numa das maiores cidades do mundo, São Paulo, no Brasil.

São imagens, sons, pensamentos que compõem um fluxo da comunicação real e virtual, com a ideia de ultrapassar o que nos é familiar para acolher a diferença na base da amizade.

Apesar de um oceano entre nós, continuamos vizinhos virtuais e conversamos sobre A vizinhança.

Marcelo, como surgiu a ideia de A vizinhança?

A Vizinhança surgiu como um blog para registrar pequenas crônicas que pudessem revelar um olhar atento ao que escapa à macro visão das cidades, especialmente da capital paulista. Viver em São Paulo, a megalópole da América do Sul, traz vários tipos de desafios. Lidar com a diversidade e a ocupação do espaço público são dois deles. Vivemos numa cidade que possui mais de 12 milhões de habitantes, com distâncias de todos os tipos: espaciais, sócio-culturais e de classe. O blog evoluiu para um projeto social com o propósito de acolher a diferença na base da amizade.

Você acredita que a tecnologia, as mídias sociais, aproximam as pessoas ou apenas criam guetos cibernéticos, cada um na sua tribo?

A tecnologia não substitui o encontro e a presença no espaço público. Entretanto, o mundo digital é um grande articulador de outros tipos de espacialidades, como aponta o geógrafo Milton Santos.

Hoje, o uso do território por diferentes tipos de ocupação incluiu também as mídias sociais. Elas sustentam uma pauta variada e criativa para explorar a cidade, de games às hortas comunitárias, da produção cultural na periferia aos serviços de apoio aos refugiados, por exemplo. Boa parte de um projeto de eco bairro, recém articulado na zona oeste paulista, se dá pelo uso das mídias sociais.

Os guetos cibernéticos existem, mas a vontade de interagir e se aproximar pessoalmente também, cabe a todos nós reforçar a riqueza de se experimentar a rua, prática que gosto de nomear como o “livrão da vida”.

Quais os desafios de A Vizinhança num mundo cada vez mais fechado, mesmo com toda facilidade de fazer amigos “virtuais”?

O desafio é a micropolítica. Colocar o corpo na urbe e acreditar que o outro não é uma ameaça e sim um tesouro. As rodas de conversa, que produzimos com base na terapia comunitária integrativa, são encontros que podem ser realizados em qualquer local, sem número limitado de participantes e sem obrigatoriedade de presença: “vem quem quiser e quando puder”.

O objetivo é desenvolver a capacidade de ouvir atentamente o outro e de falar de si. Nesses encontros comunitários se procura compartilhar experiências de vida e saberes de forma horizontal e circular. Algo que subverte a lógica da proteção cínica do mundo virtual e que privilegia o encontro desinteressado, o compartilhamento do tempo livre. Avizinhar-se pressupõe um sorriso para a diversidade e a mão estendida para a tolerância ao diferente.

Quais são os desafios e as barreiras que A Vizinhança encontra?

Nosso desafio é ampliar o conceito de vizinhança para praticar a inclusão social. Acreditamos que conversar entre iguais, manter padrões identitários capazes de assegurar a zona de conforto é se sustentar numa democracia de baixa intensidade.

Promover o diálogo nas cidades contemporâneas demanda a capacidade de ouvir quem é diferente do nosso pedaço, algo que pode ser irritante mas também divertido, capaz de apresentar boas surpresas mesmo de quem não está perfumado, de quem deseja controlar, de quem tem respotas para tudo, mas também, de quem não sabe se expressar ou acha que a cidade não é para si - os invisíveis.

O maior desafio para o projeto é sustentar a insubordinação à lógica classista que sobrepõe os predicados aos sujeitos. Praticar a democracia com bom humor e gentileza.

A Vizinhança
Quando? 02 de Maio 2017
Horario: 19:00–22:00
Local: Centro Cultural Rector Ricardo Rojas UBA
Av. Corrientes 2038, C1045 Buenos Aires, Argentina