A História como Metafísica

O tempo superado na obra de Filipe Marques

17 FEVEREIRO 2017,
Filipe Marques, "Feel it, no fear. The flesh is yields and is num", vista da exposição na Galeria Fernando Santos, 2017. Fotografia de Rui Apolinário e Ana Maria Pinto. Cortesia do artista.
Filipe Marques, "Feel it, no fear. The flesh is yields and is num", vista da exposição na Galeria Fernando Santos, 2017. Fotografia de Rui Apolinário e Ana Maria Pinto. Cortesia do artista.

Uma só rosa no meio do inferno é o paraíso inteiro.

(Eduardo Lourenço, Da Poesia; Tempo e Poesia, Obras Completas vol. III, 2016)

O tempo, como tão bem explicou Ingeborg Bachman, está a prazo, enquadra-se dentro de si. Sabemos o que é mas, se nos perguntarem, falharemos a resposta, não saberemos designá-lo, conforme confessava desconsoladamente Santo Agostinho. Proust pressentiu o agridoce aroma do tempo, transformou-o em paixão, morte e literatura. E Bergson suspeitava que, todavia, o tempo subjectivo raramente acompanha a progressão cronológica do tempo objetivo, isto é, externo à nossa própria percepção sensível. O presente é todo o seu passado vislumbrando sombriamente uma nostálgica ideia de futuro. O Dasein de Heidegger é o ser que supera a morte porque atravessa as chamas imemoriais do tempo. Cronos dança e agita-se sem par. No fundo, é um caos calmo à espera de resolução.

A obra que agora Filipe Marques (Vila do Conde, n. 1976) apresenta na galeria Fernando Santos, no Porto, entende-se como um tríptico, uma vez que prolonga A Carne que os Guindastes Suspendem (espaço MIRA, 2015) e Art Stabs Power (trabalho apresentado no âmbito do Bermondsey Art Project, em Londres), que partilham matérias, formas e ideias afins. São os grandes murais que inscrevem os principais movimentos da história da modernidade para a pensar à luz da sua memória mesma, algo para iluminar os passos da nossa existência e dos nossos rotundos fracassos.

Creio poder dizer que o trabalho de Filipe Marques, particularmente e no seu todo, vai ao limite derradeiro das últimas consequências. Não há lugar a contemplações ou a meras tentativas visuais. A ornamentação é desprovida de uma função. A escala monumental não se torna um capricho, mas uma necessidade de narrar, de desdobrar e dissecar a dialéctica e os actores que personificam o espírito da história universal. E, entre a poesia, a filosofia e a música (talvez esta última de superlativa importância) descubro, na obra de Filipe Marques, a proeminência das vozes que ecoam, designadamente, de um Hegel, um Wittgenstein, um W. Benjamin, um Celan ou um Schönberg.

A imagem é já a impossibilidade ontológica de revelar o real. É, em certa medida, a sua angústia maior. Mas as imagens que o artista utiliza no contexto desta exposição representam (e nesta palavra há todo um equívoco) o seu contrário, isto é, uma imagem depois da imagem, uma história que a ninguém restou contar, uma espécie de grau zero dessa realidade inapreensível. Talvez seja o olhar de um Ser supremo, aquele que a nós temos acesso, uma perspectiva única e diria até herética (e apenas a técnica pode arrogar-se ao título de suplantar o absoluto) de contemplar o lugar da ruína, a sua mais total devastação, a harmonia do nada. E é esse niilismo essencial, simultaneamente destruidor e redentor, a grande tessitura para a compreensão do magno labirinto que envolve o ser.

A questão existencial irrompe, aqui, como o mar gelado da razão que tanto inundou os pensamentos profanos da prosa de Kafka. Existir é ir durando no tempo, carregar uma dor e uma cruz desprovidas do prazer de as dedicar à totalidade do sagrado. O homem cumpre-se, mas a partir de si e não através de uma quimera que projectou no grande arquitecto do universo, como defendiam os iluministas. A liberdade é o presente envenenado dos deuses, um facho e um fardo, um deserto imenso no qual a solidão deixa as suas pegadas sonoras.

Assim, encaramos a transição para a pós-história, a sua descontinuidade serpenteante num tempo teleológico (subordinado às acções dos fins) e já não teológico (porque Deus morrera ou, no limite, se afastara daquilo que de mais insondável habita a alma humana). Mas a história acabou porventura? Estas imagens mostram, mais do que um aparente cenário de guerra, as vicissitudes do homem lutando contra si mesmo, sozinho, desenraizado do mundo e da natureza. A contradição que ditará o fim dos tempos, a auto-destruição eminente, a superação necessária do tempo que organiza convencionalmente o alpha e o ómega do nosso ser pensante. Ouvimos Schnittke a circular pelo espaço, como se fosse a única música possível depois do caos. Após a morte auto-consentida, digamos mesmo o suicídio, que Albert Camus identificara, em O Mito de Sísifo (1942), como o nevrálgico problema da filosofia.

Regressamos ao início da história. Morrer será essa incompreensível experiência. Mordemos a cauda da serpente que enlaça o destino e a natural tragédia benevolente de onde nascemos e para onde voltamos. A história assemelha-se à imagem de uma metafísica, essa espécie de figura tutelar de todas as musas criadoras. Não será com certeza por acaso. Estas são imagens que transcendem o seu próprio registo. Olhá-las significa alcançar a posição do demiurgo primordial.

Deste inferno nascerá a rosa, símbolo do belo diante do catastrófico dessincronizado. Ou seja, sem regra mas premeditado. A obra de Filipe Marques é esta relação com a vertigem, o abismo, o fantasmagórico e o inquietante, uma travessia indizível pelas agitadas águas de um pensamento múltiplo e voraz. É um convite à submersão. A história pede que não nos afoguemos no seu rio. Ulisses sempre voltará a Ítaca.

Exposição

Feel it, no fear. The flesh yields and is numb.
Toca, sem medo. A Carne é macia e não sente dor.

14 Janeiro › 04 Março 2017 na Galeria Fernando Santos, Rua de Miguel Bombarda 526, 4050-379 Porto, Portugal.