Os riscos do amor

Os riscos de viver a própria vida

9 JULHO 2017,
«Abelardo e Heloísa» (1882), E. B. Leighton
«Abelardo e Heloísa» (1882), E. B. Leighton

Assim se manifestou a mulher sonhadora em busca do seu amor:

«Transito entre a cidade e o campo com relativa facilidade. Meu espírito, no entanto, pertence à floresta, onde minha alma se expande.

Vivo só.

Procuro um companheiro com quem possa compartilhar e tornar mais agradável esta caminhada e para quem os meus símbolos também façam sentido.

Há coisas que não consigo fazer sozinha e que tornam a companhia do sexo oposto imprescindível: um abraço apertado, o contemplar das estrelas no céu, comprazer-se no perfume da dama da noite, buscar refúgio nas tempestades de vento e trovão...

Ouvir o silêncio da madrugada... Ou simplesmente o apreciar de um bom prato...

São infinitas as coisas que não consigo fazer sozinha.

Se você sente uma falta em seu coração e se sentiu tocado em sua alma por minhas palavras, então eu gostaria de conhecê-lo e olhar para o profundo de seus olhos...

Ler o que está lá escrito. Saber da sua verdade.

Estarei na próxima curva do caminho.

Aguardo sua mensagem».

O desejo de ter um relacionamento é universal porque as pessoas acreditam que o “Amor” pode libertá-las do medo, da necessidade e do vazio, que fazem parte da condição humana em seu estado inconsciente.

A busca do parceiro se torna então um desafio, e porque não dizer uma odisseia, na vida de quase todas as pessoas. Movidos pelas facilidades que as ferramentas virtuais proporcionam, esperamos “fisgar” nosso grande amor. O parceiro ideal pode nos surpreender “logo ali” e estamos todos quase que compulsivamente a persegui-lo, mas este, cada vez que nos aproximamos parece recuar, num jogo de aproximação e de fuga que convida à perseguição.

Esta procura parece se prolongar por um longo tempo, até porque ao longo do caminho há vários acenos de eventuais “candidatos” que nos deixam confusos(as) sobre ser esta “a pessoa certa”.

E quem é a pessoa certa? A que mais se aproxima do perfil do estereótipo sociocultural (o galã da televisão), aquela com quem nos identificamos ou a que mais facilmente acolhe as projeções de nossa alma? Não queremos pensar, não queremos saber. A pessoa certa parece ser aquela que faz nosso coração bater mais rápido, a que faz vibrar nossos sentidos ou a que nos torna ansiosos na expectativa de um sinal de que ocupamos um lugar especial em sua lembrança (um breve aceno que seja).

Mas, enfim, eis que tropeçamos naquela que julgamos ser a pessoa certa. E agora? Vamos enfrentar os “riscos do amor”? Isto é, amar e não ser correspondida ou o que é ainda pior, amar e ser traída? Ou simplesmente passar pela decepção de que a outra pessoa não atribua o mesmo peso ao relacionamento e que possa vir a nos abandonar um dia... São tantos os riscos!!!!!

De qualquer forma, amar significa colocar-se numa condição de vulnerabilidade, pois envolve uma suposta entrega de nossos afetos sem a garantia da correspondência do outro, ou seja, corremos o risco de que o “nosso coração” não seja bem cuidado. Assim, nos tornamos muito sensíveis às atitudes, palavras e posturas da outra pessoa, as quais podem interferir muito facilmente em nosso estado de humor, de forma que parecemos perder o domínio / controle sobre nossas emoções e a nossa própria vida.

Na verdade, o que todos nós buscamos através de um relacionamento é reeditar o estado fusional com a mãe, quando nos encontrávamos confortavelmente instalados e protegidos na atmosfera tépida de seu útero, tendo sido expulsos do paraíso no momento do nascimento. A falta passou a existir no momento da expulsão e desde então procuramos desesperadamente preencher o vazio que ficou nos ligando física e emocionalmente a outra pessoa.

A fusão momentânea proporcionada através do ato sexual pode até certo ponto levar à sensação de plenitude e de totalidade vivenciadas quando de nossa estadia no útero. No entanto, a vida continua após os folguedos do amor. Relutamos, contudo, a aceitar que aquela estadia original foi para sempre perdida, visto que, como foi dito, a fusão é momentânea e o parceiro é outro ser que possui vida própria, sendo que sua maneira de agir e encarar a vida e o relacionamento amoroso pode ser até diametralmente oposta à nossa. Talvez na tentativa de negar essa realidade incontestável, casais desenvolvem uma relação de dependência exacerbada, que podemos chamar de simbiótica, na ânsia de agarrar e conservar consigo a condição nirvânica perdida.

A tomada de consciência de que somos seres solitários que, em nossa passagem pela terra, cruzamos e compartilhamos nossos anseios e angústias com outras pessoas que estão nesta mesma busca, não precisa ser necessariamente dolorosa. Em nossa trajetória, algumas dessas pessoas parecem nos tocar de maneira especial e tornar para nós mais vivas as cores da vida, mas isto não impede o retorno dos antigos medos e frustrações que julgávamos terem sido aplacados pelo relacionamento, pois o outro não é capaz de deixar de ser ele mesmo por muito tempo para corresponder à nossa expectativa.

Na realidade, o papel do outro é enriquecer nossa experiência, trazendo mais cor e luz à nossa vida, no entanto, o desafio de viver a própria vida com todos os riscos que isto envolve cabe a cada um de nós, para que ao fim da jornada nos façamos mais fortes e possamos ascender um degrau na escala de evolução. Lembrando que o maior risco de viver a própria vida talvez seja fazer as próprias escolhas e assumir junto com isso, suas consequências. Não se esquivar, apesar da insegurança e do medo, já que cotidianamente nos confrontamos com situações sobre as quais não temos controle. A experiência de amar outra pessoa é uma destas situações.

Amar é viver.

Viver é amar.