«A música secreta da natureza está na harmonia dos contrários que emerge sob a forma de regularidade, como se houvesse uma lógica disciplinando o caos».

(Josué Cândido da Silva)

Aconteceu com você de coisas em sua vida se transformarem no seu contrário ou se virarem do avesso da noite para o dia?

Maria José (nome fictício) é um dos casos que atendo como psicóloga do SOS Ação Mulher e Família - uma instituição que atua no enfrentamento da violência contra a mulher em Campinas, SP - e nos surpreendeu a todos com uma grande reviravolta em sua vida. Vivendo há mais de 12 anos na segurança de seu quarto escuro, ela vinha de uma prolongada síndrome de stress pós-traumático, com variáveis altamente complexas, num misto de pânico e depressão, reclusa e afastada de tudo e de todos. Dentro dela as forças da vida e da morte (Eros e Thanatos, respectivamente) viviam num constante duelo. Ao mesmo tempo em que possuía um fascínio pela morte e ao cair da noite rogava a Deus este ‘presente’, sentia-se punida quando ao amanhecer do dia seguinte era agraciada pelo dom da vida.

Maria José planejou todos os detalhes da cena de sua morte: cuidou para estar sozinha em casa, trancou todas as portas e janelas, desligou os telefones e escreveu uma carta para seus filhos; o carro que lhe pertencia deixou para o filho mais velho e para o outro fez a compra de outro veículo pela internet, sabedora de que a morte do adquirente quita o bem... Somente então ingeriu seis comprimidos de um medicamento de que fazia uso contínuo e pensou então estar pronta para o sono eterno.

A usuária acordou quatro dias depois, com muitas dores pelo corpo, a roupa colada à sua pele em consequência de intensa sudorese e mais uma vez agraciada pelo dom da vida. A contragosto, Maria José foi obrigada a retomar seus contatos, pois, decorrido o tempo, um dos filhos voltou para casa e ela foi paulatinamente voltando à vida normal, até que ficou sabendo de uma pessoa conhecida que não teve a mesma sorte, pois, ao tentar suicídio ingerindo um grande número de comprimidos, permaneceu viva em estado vegetativo dependendo de cuidadores para executar suas necessidades básicas. Maria José sofreu um grande impacto ao receber a notícia, pois esta seria a última coisa que desejaria que acontecesse consigo: uma tentativa de suicídio frustrada com consequências trágicas.

Esta “imersão” no terreno pantanoso da morte seguida deste recado da Providência fez com que a usuária mudasse radicalmente sua postura diante da vida da noite para o dia: percebeu que ficar sentada esperando a morte chegar podia ser muito cansativo e resolveu então assumir o seu lugar no mundo. A volta ao trabalho após vários anos afastada foi um passo relativamente simples (foi necessário apenas retomar seus contatos antigos e fazer um pequeno teste de atualização, pois era muito respeitada em seu meio profissional), tendo sido necessário apenas se entender com o seu medo e a insegurança de quem está recomeçando.

Outro exemplo de reversão no seu oposto seriam tons exaltados de voz, choques ou explosões súbitas entre casais que até então funcionavam em harmonia, trazendo à tona repentinamente um ódio oculto, nunca antes experienciado. O ódio passa a ser um corpo estranho entre o casal, uma “batata quente” que cada qual joga para o outro, mas que nenhuma das partes a reconhece como própria e não sabe o que fazer com isso. Freud já dizia que amor e ódio são duas faces da mesma moeda. Podemos entender vida e morte como os extremos de um mesmo continuum de um quantum vibracional. A pergunta a ser formulada é: “O que desencadeia o processo de reversão?”

Um pequeno “cisco” presente no contexto dramático, que até então havia passado despercebido, mas que dados da experiência evidenciaram abruptamente sua presença? Aspectos reprimidos do inconsciente que assomam intempestivamente à consciência? Ou simplesmente o fato de que todas as coisas quando são vividas “até a última gota” tendem para o seu contrário, tal qual o pêndulo do relógio? Ou ainda que conflitos, pontos enegrecidos jaziam no fundo obscuro do inconsciente e bastou um leve chacoalhão na garrafa para que tudo viesse à tona causando uma grande reviravolta (o que estava embaixo veio para cima e o que estava em cima foi para baixo), corrompendo assim a ordem?

O fato é que conviver com os contrários dentro de si ou em um relacionamento é uma empreitada bastante difícil. Maria José muitas vezes se deparou pensando que possuía duas personalidades, visto que lidar com este turbilhão dentro de si lhe parecia muito confuso. Pensando no casal, para cada uma das partes não é difícil apreender a afirmação de que “ele/a não me ama, pois se assim fosse, não agiria desta forma comigo”.

A angústia mobilizada por se sentir mergulhada num caos nos faz movimentarmo-nos rapidamente em busca da ordem e assim chegamos à preciosa dedução filosófica da tese ➟ antítese ➟ síntese, o famoso método dialético.

Segundo o método dialético a tese é uma afirmação, a antítese é a negação da tese / afirmação contrária, e a síntese, como o próprio nome indica, concilia as duas primeiras ideias em um meio-termo. A síntese supera a tese e a antítese (portanto, é algo de natureza diferente), ao mesmo tempo em que conserva elementos das duas. E, na sequência, dá origem a uma nova tese, que inicia novamente o ciclo.

Josué Cândido da Silva (professor de Filosofia da Universidade Estadual de Santa Cruz em Ilhéus, BA) ressalta que para Heráclito, o filósofo de Éfeso, as coisas mudam porque existe uma tensão de forças contrárias dentro delas, como o mel que é, a um só tempo, doce e amargo. É a tensão dos contrários no interior de cada coisa que põe tudo em movimento. Admirável é que a tensão entre os contrários não produz destruição das forças em conflito (como ocorre na guerra), mas harmonia: “o contrário é convergente e dos divergentes nasce a mais bela harmonia, e tudo segundo a discórdia”. Mas como isto é possível? É possível se os contrários encontrarem um equilíbrio, como o arco e a lira: tensão demais e a corda se rompe, demasiado frouxo e não produz música.

Voltando ao dilema de Maria José e ao casal que briga, a solução parece estar no encontro de uma nova harmonia nascida do confronto entre os opostos.

É preciso dar voz a cada uma das partes, legitimando assim, sua presença e sua razão de ser/estar na vida daquela pessoa, daqueles dois. Seria ainda melhor se as partes pudessem se ouvir e se conversar. Somente então uma nova ordem poderia ter lugar, sendo o elemento estranho que deu origem ao conflito, agora digerido e assimilado nesta nova ordem, tornando possível se orientar rumo a uma direção mais definida.

É complexo, mas também é simples. Não, faz todo sentido.

Fontes

Veja-se o site.
Josué Cândido da Silva, Especial para a Página 3 – Pedagogia & Comunicação
Dialética - Tese, antítese e síntese.