Em vista de um Brasil despercebido, a era dos editais na cultura reabre para um protagonismo refuncionalizado dos saberes populares. As formalidades instituídas e o aparato do mercado conduzem a uma nova postura de entretenimento e disseminação das manifestações culturais. A classificação para inscrição do patrimônio imaterial traz um novo olhar no que era restrito às comunidades e aos pesquisadores. A diversidade torna-se algo respeitável nas culturas populares, mas o fortalecimento dos costumes e crenças passa a ser ditado por diversas regras pontuadas pelo mercado.

Necessitamos compreender que as abordagens em direcionar o modo de saber do povo perpassam por uma condução e atuação de novas conexões em redes. O imaginário popular de cada região juntamente com o aporte de lideres culturais que reconduzem as formas estéticas e funcionais de grupos, agremiações, artesões entre outros, revelam um poder em novos hábitos de vivências. Nessa observação, as políticas culturais no Brasil são traduzidas pelo víeis institucional. Não podemos pensar em políticas culturais sem o atrelamento do Estado e das gestões governamentais. Em contrapartida o Brasil não é um país simples na perspectiva de administrar questões culturais. Possuímos um caldeirão de arte, saberes e patrimônios. São muitos símbolos que necessitam de codificação em desenvolvimento para ressignificação de novos pensamentos mediante uma política cultural.

O panorama para uma demanda do patrimônio tanto imaterial quanto material revela-se em revisitar os espaços e locais de identidades culturais. A política cultural reascende o alinhamento de conexões com as cidades, com a urbanidade na proposta de novas formas de convivências. Temos que entender que as políticas culturais no Brasil devem aprimorar para uma consciência coletiva em detrimento de um olhar dos modos de convivências e de sustentabilidade. São vários parâmetros que perpetuam as políticas culturais que hoje são destinados a porcentagens de valores econômicos para compor a orquestra da efetivação na disposição de incentivos de chamadas púbicas que evidenciem a cultura para todos. Os articuladores na criação das culturas populares, também são responsáveis pela dimensão das políticas culturais na sociedade em redes. São histórias que configuram um diálogo entre formas de exibições, exposições e acervos na cultura. As produções culturais e o afloramento das tradições populares exibidas em cortejo pela visibilidade de manifestações guardadas no imaginário popular reascendem uma versão múltipla para novos valores e contextualização em programas de gestão cultural. São formas de identificações objetivadas em várias classificações para uma estratificação da essência e espontaneidade do folclore, da arte e da cultura popular.

Com tamanha responsabilidade a política cultural caiu na graça de três grandes pensadores que além de pensar em estratégias de visibilidade, elaboraram incentivos, projetos, técnicas e tendências para notoriedade dos parâmetros culturais. Demos atenção aos estudos de Mário de Andrade defensor da cultura que com persistência vislumbrou o desbravamento da mesma com a disponibilidade e ajuda de Gustavo Capanema o direito de todo cidadão à cultura. Ele foi responsável pela memória de saberes populares no Brasil introduzindo a noção de sistema na gestão cultural entre às regiões do Brasil, ou seja, ampliou a atribuição do Estado na promoção da política cultural1. Outro grande fenômeno nessa mesma linha foram os trabalhos do educador baiano Anísio Teixeira que foi um defensor da arte e da cultura no ensino a partir da introdução da escola pública no Brasil trazendo um novo paradigma em relação às visibilidades dos saberes e manifestações populares existentes no país.

Ressalta-se no dizer de Anísio uma identidade com a nova concepção de educação para o milênio que se inicia, proposta pelo Relatório Delors-Unesco, indicando a sua estruturação a partir de quatro princípios pilares: "aprender a conhecer", "aprender a fazer", "aprender a viver juntos", "aprender a ser", que pensados na sua interação e interdependência, fundamentam-se numa concepção de totalidade dialética do sujeito2.

Também não podemos deixar de citar o revolucionário ministro da cultura do governo do presidente Lula, o cantor e compositor baiano Gilberto Gil. Gilberto Gil com ternura, afeto e alacridade transformou burocracia em contextos de visibilidade com a elaboração dos Pontos de Cultura.

A cultura não é uma estrutura definida e cristalizada, mas um processo, um fluxo contraditório. A cultura é sinônimo de transformação, de invenção, de fazer e refazer, de ação e reação, uma teia contínua de significados e significantes que nos envolve a todos, e que será sempre maior do que nós, por sua extensão e sua capacidade de nos abrigar, surpreender, iluminar e — por que não? — identificar. As culturas são como rios, como disse o antropólogo Marshall Sahlins, pois não se pode mergulhar duas vezes nas mesmas águas, porque elas estão sempre mudando. Então, culturas se criam, alteram-se e se resignificam, ou seja, se reinventam. E quanto maior for o grau de partilha, mais democrática, criativa e tolerante será nossa sociedade. E assim se afirma a noção de diversidade.

(Disponível aqui)

Para salientar essa discussão, lembramo-nos da proximidade da cultura com o desencadeamento da civilização. O conceito de cultura é bastante complexo, mas em determinadas situações é bastante simplificado por vários comparativos.

Cultura e civilização, tomada em seu sentido etnográfico amplo, é aquele todo complexo que inclui conhecimento, crença, arte, moral, lei, costume e todas as demais capacidades e hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro de uma sociedade. A condição da cultura, entre as diversas sociedades da espécie humana, na medida em que é passível de ser investigada nos princípios gerais é um tema apropriado para o estudo do pensamento e da ação humanos.

(Tylor apud Thompsom 1995, p. 171)

Nesse argumento, podemos dizer que a cultura oferece sentido nas vivências humanas. O que podemos dizer que é o alimento das políticas culturais em oferecer sentido ao público pelos saberes e arte populares. Ao destacar esse aspecto, devemos compreender que o mundo mudou, estamos em transição entre o paradigma patriarcal para o paradigma do cuidado. São novas invenções tecnológicas, é o cibercidadão ditando novas tendências de relacionamentos, moda, atitudes e comportamentos. Então, como desencadear novos aportes nas politicas culturais numa sociedade de padrões altamente mercadológicos e tecnológicos? Os hábitos são formadores da personalidade, fazem parte dos costumes, revelam identidades e disseminam cultura. No livro o poder do hábito, Charles Duhigg diz que, “muitas vezes, os hábitos são tanto uma maldição quanto um benefício.”4 Por assim dizer, a rivalidade sadia traz a criatividade, enquanto a disputa engrandece e fortalece o egoísmo. Desde o aparecimento da propriedade privada, as cidades reascendem o egoísmo como interesse fundamental para convivência e sustentabilidade. Para tanto, escreve o historiador Achille Mbembe:

“Outro longo e mortal jogo começou. O principal choque da primeira metade do século XXI não será entre religiões ou civilizações. Será entre a democracia liberal e o capitalismo neoliberal, entre o governo das finanças e o governo do povo, entre o humanismo e o niilismo”, E faz um alerta: “A crescente bifurcação entre a democracia e o capital é a nova ameaça para a civilização”.

Uma nova civilização está à vista! O conhecimento estará mais ainda relacionado ao mercado voltado para humanidades digitais. São novas vivências na qual a estética é pautada em estratégia digital entre consumo e valorização do ego. A busca por um mundo de negócios reconduzem as pessoas em uma nova dimensão de estilo de vida. É uma era da busca pelo falso glamour.

Há também um fator preponderante que está ligado a cooperação nas comunidades evidenciado por George Yúdice, em sua obra a Conveniência da cultura: usos da cultura na era global: o lugar ocupado pelos trabalhadores culturais constitui o modelo dos novos trabalhadores flexíveis do setor de serviços, que produzem conhecimento e processo (p. 421), olhar ampliado pelo inSITE ao privilegiar a ação em lugar da retórica publicitária de inserção de comunidades na “reconstrução das cidades” (p. 424). O autor também enfatiza a noção de vantagem cooperativa em detrimento de ganhos e reajustes financeiros para visibilidade da cultura local.

O debate que eu imagino comporta a compreensão do próprio papel das pessoas [...]. É somente com o estabelecimento do protagonismo dos participantes, inclusive sua autoria em todos esses níveis, que se pode começar a entender o que significa para uma comunidade beneficiar-se de um projeto de modo que sejam transcendidas as limitadas inflexões do “enriquecimento” (ou seja, as noções estabelecidas de capital cultural, econômico e social) (p. 418).

Temos também questões da hibridização que afetam as identidades em detrimento das mudanças nas comunidades menos favorecidas como aponta Canclini,

Que cidadania pode expressar este novo tipo de identidade? Na primeira parte tentamos pegar o cidadão atual mais como habitante da cidade do que da nação. Ele se sente enraizado em sua cultura local (e não tanto na nacional do que lhe falam o Estado e os partidos), mas essa cultura da cidade é o ponto de intersecção de múltiplas tradições nacionais – as dos migrantes reunidos em qualquer metrópole - que por sua vez são reorganizados pelo fluxo transnacional de bens e mensagens.

Ou seja, aspectos expressivos da refuncionalização cultural reorganizam para que novos hábitos se fundam a favor da construção da cidadania.

Notas

1 * “O dia em que nós formos inteiramente brasileiros e só brasileiros a humanidade estará rica de mais uma raça, rica duma nova combinação de qualidades humanas. (...). Nós imitando ou repetindo a civilização francesa, ou a alemã, somos uns primitivos, porque estamos ainda na fase do mimetismo. Nossos ideais não podem ser os da França porque as nossas necessidades são inteiramente outras, nosso povo outro, nossa terra outra, etc. Nós só seremos civilizados em relação às civilizações o dia em que criarmos o ideal, a orientação brasileira. Então passaremos da fase do mimetismo pra fase da criação. Então seremos universais, porque nacionais.”* (Andrade, 1988, p. 30-31). [Consultar](file:///C:/Users/R%C3%BAbia%20L%C3%B3ssio/Downloads/137135-Texto%20do%20artigo-264618-1-10-20170817.pdf). Mário de Andrade e Aloísio Magalhães: Dois personagens e a questão do patrimônio cultural brasileiro, Marcelo de Brito Albuquerque Pontes Freitas.

2 Artigo intitulado Anísio Teixeira, uma "visão" do futuro de Célia Maria Ferreira Cordeiro. Disponível aqui.

3 “O trabalho de Klemm era conhecido de E. B Tylor, professor de Antropologia na Universidade de Oxford, cujo o principal trabalho, *Primitive Culture, foi publicado em dois volumes em 1871. No contexto inglês, o contraste entre ‘cultura’ e ‘civilização’ não era tão marcante como na Alemanha. Tylor empregou os termos de maneira intercambiável, oferecendo no início de Primitive Culture esta definição clássica:”* IN: THOMPSON, JOHN B. Ideologia e Cultura Moderna. Petrópolis: Vozes, 1995. P. 171.

4 DUHIGG, Charles. O poder do Hábito: Por que fazemos o que fazemos na vida e nos negócios. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012, p.39.

5 CANCLINI. Nestor García. Consumidores e Cidadãos: conflitos multiculturais da globalização. Rio de Janeiro. Editora UFRJ, 1995. P. 36.